"Eu tenho que pagar jabá"
Almir Rouche solta a voz e critica a falta de apoio para o cantor de frevo e o modelo da folia no Recife e em Salvador. "Comparo o carnaval do Recife ao pato, que bota o melhor ovo, mas não vende". A frase é de Almir Rouche, cantor que já é sinônimo da folia pernambucana, e que amanhã anima a prévia do Siri na Lata, no Clube Português (ele tem contrato com o bloco até 2016). Almir se tornou conhecido como vocalista da Banda Pinguim, nos anos 80, disputando com os blocos de axé music a Avenida Boa Viagem, e furando o bloqueio das emissoras de rádio, onde predominava a música baiana: "Fomos pioneiros nesta época, porque o frevo não tocava mais, a não ser os antigos discos. A gente brigava também com as bandas baianas porque o Recifolia, as micaretas não tinham regras. Quer dizer, tinha para a gente. Cansei de ver o Chiclete com Banana desrespeitar a ordem. Se a gente desrespeitasse era multado. Chegamos uma vez a colocar o caminhão da Turma do Pinguim atravessado na avenida pois o Chiclete queria passar na frente. O Bloco do Pinguim era o único daqui que peitava os baianos", conta Rouche. Para ele, embora o Carnaval não sofra mais a invasão baiana, não mudou muito para os músicos pernambucanos: "O que acontece é que a rádio não toca frevo. No sábado passado, eu ia para um baile, liguei o rádio do carro e durante todo o trajeto não tocou um só frevo. Para tocar tem que pagar R$ 3 mil por mês. Lancei um disco pela BMG, o pessoal tentou pagar para tocar em Salvador, e o cara da rádio disse que não tocava, porque lá só toca baiano. Já aqui, eles pagam e as rádios tocam. Eu, pessoalmente, não tenho do que me queixar, porque pago, fazer o quê? Antigamente a gente furava as rádios daqui, não deixava de ser jabá, mas uma troca, por show. Agora não, é só com dinheiro". Embora tenha uma agenda lotadíssima, está em praticamente todos os palcos do Carnaval pernambucano, Almir Rouche dispara sua metralhadora giratória contra o modelo da folia recifense: "Você vê a TV mostrando o Carnaval do Recife, e a abertura tem Marisa Monte no Marco Zero. Tudo bem marisa Monte é maravilhosa, mas não canta Carnaval. O cara da TV, por sua vez está acostumado com Marisa, quer outra coisa, então muda para o Carnaval baiano, e lá está Chiclete, Ivete, Araketu, a maior festa, todo mundo dançando. A gente está investindo, mas não está sabendo vender. Enquanto continuar assim, vamos levar lapada dos baianos todos os anos. Já puxei bloco em Salvador, o Carnaval de lá é o o mais violento possível. Vi lá de cima do caminhão, fora do cordão, mulher ter a roupa rasgada. Aquele Carnaval de lá é um desrespeito ao folião. Porém eles não mostram isto, e se vendem tão bem, que até nos jornais daqui, nas seções de TV, o que mais tem é Ivete, Tatau, Cláudia Leitte, e nenhum artista local". Almir Rouche tem 11 discos com a Banda Pinguim, dez CDs solo, 25 anos de carreira. Nascido em Igarassu, com título de Cidadão Recifense (recebido em dezembro passado), ironiza ao comentar que este ano já aconteceram algumas mudanças para melhor na folia: "Pelo visto a mudou a mentalidade do prefeito João II, porque ao menos este ano, no cartaz do Baile Municipal, tem os nomes dos artistas locais. No ano passado trouxeram Gal Costa, pagaram uns cem mil para ela cantar meia-hora. Gal, Elza, Marisa são maravilhosas, mas não cantam carnaval. Botaram Elza no outro baile, ela foi vaiada. Mas não teve culpa, só estava no lugar errado. Para mim este Carnaval não é o Carnaval de Pernambuco. O governo não valoriza os artistas locais. Aqui somente Spok é valorizado, e com todo mérito, porque ele é genial. Mas é só ele". Rapaz de família humilde que só conheceu o pai com 30 anos, Almir Rouche foi criado pela mãe e pela avó: "Mas pela minha avó. Eu estava com oito anos quando ela me levou para São Paulo. Foi lá que comecei a participar de festivais colegiais", relembra Rouche, que conta ter vencido dois destes como cantor. "Com nove anos ganhei um festival cantando um vira de Roberto Leal. No ano seguinte, venci com O mar serenou, o sucesso de Clara Nunes". Aos 13 anos, ele voltou a Igarassu, e iniciou sua carreira profissional, cantando em barzinhos, churrascaria, bandas de baile (com a qual viajou durante 40 dias pelo Nordeste). "Por esta época comecei também a estudar canto, com a professora Janete Perrucci, cantava também no Coral da Igreja Católica de Cruz de Rebouças. ia para onde pudesse me aprimorar. A professora que me ensinava impostação clássica disse que eu tinha uma pegada mais para o popular, e que não deveria perder isto. Nos bailes eu cantava tudo, de Luiz Gonzaga a Roberto Carlos. Foi outra grande escola", conta. A Banda Pinguim entrou em sua vida quando ele tinha 16 anos. Foram 12 anos seguindo como cantor do grupo: "A banda pertencia ao grupo Itamaracá, tinha contrato com a Antarctica. Para enfrentar o axé, o pessoal da Itamaracá quis que a gente gravasse músicas de duplo sentido. Tivemos que usar as mesmas armas dos baianos, porém com frevo. A Banda Pinguim enfrentou o rolo compressor baiano (amparado pelas multinacionais do disco), com sucesso como Bota pra mexer, O pirolito, O periquito e até A rolinda (a de Dona Selma do Coco): "Era duplo sentido, mas nem chegava perto do que o pessoal está fazendo hoje. Com o sucesso da banda, surgiu um cara importante, Zé Mário Austragésilo, que abriu a grade da TV Jornal para o frevo, para artistas locais. Eu fiz programas na TV Jornal - Ver de novo o verão, o Canto do verão". Para ele o mercado pernambucano é amplo, tem espaço para todo mundo: "Tem lugar para mil artistas, mas desde que haja empenho de todos, união dos artistas, empenho do governo. Na Bahia o governo chega junto das rádios, onde se vai está tocando música baiana, e aí independe se a pessoa gosta ou não. Ela toca. As rádios ão precisam do governo? Por que eles não chegam junto, fazem algum tipo de acordo? E olhe que não falo por mim. Não sou rico, primeiro porque sou arrimo de família e sustento um bocado de parentes, depois porque sou quem paga melhor aos músicos. Eu e André Rio. Por isto minha banda está comigo há 15 anos", diz Almir Rouche, que depois de 40 shows entre janeiro e março, inclusive na Flórida, nos Estados Unidos, não para: tem pela frente as festas da "ressaca". Matéria por José Teles, Caderno C do Jornal do Commercio em 12-02-2009.
Escrito por Assessoria às 11h18
[]
[envie esta mensagem]
|